terça-feira, 17 março, 2026

DF: Setor do Turismo não teme alerta de segurança norte-americano

Por Chico Sant’Anna

O Alerta de Segurança da Embaixada dos Estados Unidos para que nacionais daquele país tenham cuidado ao visitar Brasília e evitem ir a quatro regiões administrativas do Distrito Federal é uma dupla paulada sobre a gestão de Ibaneis Rocha. Não por menos ele se estrebuchou como raramente visto. A primeira cacetada é sobre o discurso de eficiência de sua política de Segurança Pública, que aos olhos dos gringos não está boa, à ponto de constar de um alerta internacional. Segundo, na atração de turistas estrangeiros. Os estadunidenses formam o principal grupamento de estrangeiros que visitam à Capital Federal. Uma redução nesse volume de pessoas impactaria diretamente hotéis, bares, restaurantes, agência, além de taxistas e motoristas de aplicativo. Em outras palavras: emprego e renda.

Essa é a segunda vez que a representação diplomática norte-americana emite alerta de segurança para que ao visitar Brasília evitem Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá. Curiosamente, ambas sob a presidência de Donald Trump. Não se tem notícia de iniciativa semelhante na gestão Biden. Para diversas autoridades locais, o aviso é visto como fake News dos gringos.

Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá estão novamente na lista de locais proíbidos pela Embaixada dos Estados Unidos. Visita só à luz do dia, devido a índice de criminalidade.

Em 2020, como agora, a recomendação era para excluir visitas à Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá nos períodos sem luz do dia, devido a índice de criminalidade. Na visão da embaixada não houve melhorias na segurança pública dessas localidades a ponto de determinar que “dado os riscos de crime, funcionários do governo dos EUA que trabalham no Brasil devem obter autorização especial para viajar para essas Regiões Administrativas, de entre 18:00h e 06:00h.”

Para a consultora em segurança e ex-titular da pasta, Márcia Alencar, o alerta não faz sentido. “O DF tem queda vertiginosa de homicídios desde 2015. Brasília é referência nacional de qualidade das Polícias Militar, Civil, Penal e Bombeiros Militar. O que manchou a segurança pública do DF, que maculou sua imagem foi o 8 de janeiro, pela ação de descoordenação muito bem executada, por razões hoje tão claramente expostas” – avalia ela.

Secretaria de Turismo afirma queas regiões administrativas citadas pela Embaixada Americana:  Ceilândia, Santa Maria, Paranoá e São Sebastião, não integram os roteiros turísticos do Distrito Federal, especialmente no que se refere ao público estrangeiro. Foto de Toninho Tavares/Agência Brasília.

Visões

A visão dos diplomatas também se choca com a leitura oficial sobre a insegurança pública na Capital Federal. O GDF se vangloria que a cidade registra a menor taxa de homicídios em onze anos e que houve redução na quantidade de mortes no trânsito. Em maio passado, o secretário de Segurança, Sandro Avelar, comentava que a melhoria nas estatísticas era fruto da ação da parta. “O que temos é o resultado de uma política duradoura, de longo prazo e consistente” – disse ele à Agência Brasília – difusor oficial de notícias do GDF.

Pelos estatísticas oficiais, em 2024 houve uma melhoria da situação, em relação a 2023. Entretanto, naquele ano, quando foram registrados 203 homicídios no DF, as cidades que tiveram mais ocorrências – segundo informou no Correio Braziliense a repórter Ana Maria Campos – foram: Ceilândia (31), Planaltina (17), Recanto das Emas (12), Samambaia (12), Santa Maria (11), Sol Nascente (10) e Taguatinga (10). Esses dados dão certa razão à embaixada dos Estados Unidos quanto aos riscos de Ceilândia e Santa Maria, mas desacreditam quanto a São Sebastião e Paranoá. Não é sabido que dados embasaram o alerta aos gringos.

Estatísticas

Os dados da secretaria de Segurança podem até apresentar uma melhora em relação a anos passados, mas certamente preocupam aqueles que estão acostumados a outro padrão de segurança. Além disso, nas quatro regiões administrativas glosadas pela Embaixada dos EUA, mantido até o final do ano o comportamento verificado nos quatro primeiros meses de 2025, a tendência é uma piora dos indicadores de segurança pública.

Impacto no turismo

O Alerta de Segurança indignou muita gente em Brasília. “Não é de hoje que a Embaixada dos Estados Unidos tenta pintar um retrato distorcido das periferias do Distrito Federal” – comentou o distrital Max Maciel (Psol). Para mostrar a riqueza da periferia, ele realizou um “rolê”, acompanhado da parlamentar alemã, Katalin Gennburg, pelas “quebradas do DF”, como Max gosta de se referenciar às áreas periféricas de Brasília.

O “rolê” da deputada federal alemã, Katalin Gennburg, pelas “quebradas do DF”, siceroneada pelo deputado distrita Max Maciel (Psol) foi uma resposta ao alerta de segurança emitido pela Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília.

Gennburg visitou o Sol Nascente e Ceilândia, passeou na Feira da Ceilândia e se esbaldou almoçando mocotó. Atividades que qualquer turista proveniente do Hemisfério Norte, teria curiosidade de realizar. “Para o choque da embaixada dos EUA, o único risco que Gennburg correu foi o de se apaixonar pela maior quebrada do DF” – escreveu Max em seu perfil no antigo Twitter.

Em uma iniciativa da secretaria de Relações Internacionais do DF, diplomatas de diversas nações têm sido convidados para conhecer os recantos de Brasília e a biodiversidade do Cerrado.

Conhecendo as belezas do Cerrado

Já há algum tempo, o secretário de Relações Internacionais do DF, Paco Brito, realiza um trabalho de formiguinha, mostrando os recantos de Brasília aos diplomatas de diversas nações. Eles passam a conhecer uma Brasília fora do avião, as riquezas do Cerrado. Locais que eventualmente desconheciam ou que não imaginariam visitar. Saboreiam a culinária regional. É uma forma pedagógica de potencializar o turismo em Brasília. Colocar a cidade na rota das férias de muitos estrangeiros. O alerta de segurança da US Embassy joga no sentido contrário. Não só na atração de estadunidenses, mas também viajantes de outras nacionalidades e, inclusive, membros de organismos internacionais, que se orientam com base em avisos desse tipo.

Preocupado com o impacto no fluxo de turistas ao Brasil, que injetou US$ 7,4 bilhões no ano passado, o presidente da Embratur divulgou nota repudiando o que ele denominou de  “recomendação alarmista, que mais se presta à desinformação do que à proteção dos cidadãos americanos”. Para Marcelo Freixo, o alerta de segurança “reproduz uma imagem distorcida e ultrapassada do nosso país.”

A cidade ainda não recuperou o volume de passageiros do período pré-pandemia. A expectativa era que 2025 superasse a marca de 2019, quando 15.217 turistas dos EUA chegaram em voo direto à Capital.

1º alerta

Não é muito fácil avaliar o impacto na chegada de turistas norte-americanos a Brasília após o Alerta de Segurança de janeiro de 2020, quando, igualmente ao momento atual, Donald Trump era o presidente. As estatísticas revelam uma queda brutal, mas o período coincide com o início oficial da Pandemia da Covid no Brasil. Não dá pra avaliar o efetivo efeito do alerta. Concretamente, em 2018, chegaram 12.426, em 2019, subiu para 15.217 passageiros; e, em 2020, caiu para 4.142. A estatística não contabiliza quem chegou ao Brasil por outra cidade.

A cidade ainda não recuperou o volume de passageiros de 2018. Em 2024, 11.500 turistas dos EUA chegaram à Brasília em voos diretos. Nesse ano, até maio, praticamente um, a cada quatro passageiros estrangeiros que chegaram ao Aeroporto JK, era das terras do Tio Sam. O JK recebeu em voos diretos 37.491 estrangeiros, sendo 8.420 dos EUA.

Associação Brasileira da Indústria Hotelaria (ABIH-DF), Henrique Severien, avalia que o forte de Brasília é o turismo doméstico, de negócios e eventos; que o peso dos norte-americanos não é expressivo.

Analistas estiam que a curto prazo pode haver impacto na chegada de turistas norte-americanos. “O alerta pode provocar um recuo momentâneo, mas os fundamentos (conectividade aérea, calendário de eventos, parceria institucional) sugerem que o impacto será limitado e reversível se a SSP -DF responder com informação transparente e ações de segurança visíveis” – avalia Paulo Palhas, diretor executivo do Brasília Convention & Visitors Bureau. O presidente do Sindicato das Empresas de Turismo do Distrito Federal (Sindetur-DF), Lamarck Freire, faz coro com aqueles que consideram o aviso norte-americano descabido: “não tem lastro com a realidade” – diz ele, preocupado com potencial reflexo no fluxo de turistas. Para ele, ainda não é possível estimar o impacto que o aviso poderá gerar.

De seu lado, o presidente da seção local da Associação Brasileira da Indústria Hotelaria (ABIH-DF), Henrique Severien, avalia que o forte de Brasília é o turismo doméstico, de negócios e eventos; que o peso dos norte-americanos não é expressivo, mas que mesmo assim, “não há, até o momento, qualquer indicativo de impacto real na ocupação da rede hoteleira ou no comportamento do público estrangeiro”.

Esse impacto não deverá se materializar, na visão do secretário de Turismo, Cristiano Araújo. Em nota, a secretaria afirma que o alerta da embaixada “não deve impactar o fluxo de turistas norte-americanos em Brasília, que seguem como um dos principais grupos de visitantes internacionais na cidade” e que “as regiões administrativas citadas pela Embaixada Americana:  Ceilândia, Santa Maria, Paranoá e São Sebastião, não integram os roteiros turísticos do Distrito Federal, especialmente no que se refere ao público estrangeiro.”

“A Capital Federal permanece de portas abertas, com hospitalidade, estrutura e uma diversidade de experiências à disposição dos visitantes de todas as nações” – conclui.

O original encontra-se em https://chicosantanna.wordpress.com/2025/06/04/df-setor-do-turismo-nao-teme-alerta-de-seguranca-norte-americano/

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