Especialistas e autoridades ainda não sabem se a chegada de turistas internacionais a Brasília, será impactada com o Alerta de Segurança emitido pela Embaixada dos Estados Unidos. Quatro cidades do DF entraram na lista proíbida, andar de ônibus também. O comunicado da US Embassy irritou o Buriti por questionar a eficácia da seguramça pública implementada no Planalto Central. Foto de Joel Rodrigues – Agência Brasília.
Por Chico Sant’Anna
O Alerta de Segurança da Embaixada dos Estados Unidos para que nacionais daquele país tenham cuidado ao visitar Brasília e evitem ir a quatro regiões administrativas do Distrito Federal é uma dupla paulada sobre a gestão de Ibaneis Rocha. Não por menos ele se estrebuchou como raramente visto. A primeira cacetada é sobre o discurso de eficiência de sua política de Segurança Pública, que aos olhos dos gringos não está boa, à ponto de constar de um alerta internacional. Segundo, na atração de turistas estrangeiros. Os estadunidenses formam o principal grupamento de estrangeiros que visitam à Capital Federal. Uma redução nesse volume de pessoas impactaria diretamente hotéis, bares, restaurantes, agência, além de taxistas e motoristas de aplicativo. Em outras palavras: emprego e renda.
Essa é a segunda vez que a representação diplomática norte-americana emite alerta de segurança para que ao visitar Brasília evitem Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá. Curiosamente, ambas sob a presidência de Donald Trump. Não se tem notícia de iniciativa semelhante na gestão Biden. Para diversas autoridades locais, o aviso é visto como fake News dos gringos.
Para mais detalhes sobre o 1º Alerta de Segurança no DF, leia:

Em 2020, como agora, a recomendação era para excluir visitas à Ceilândia, Santa Maria, São Sebastião e Paranoá nos períodos sem luz do dia, devido a índice de criminalidade. Na visão da embaixada não houve melhorias na segurança pública dessas localidades a ponto de determinar que “dado os riscos de crime, funcionários do governo dos EUA que trabalham no Brasil devem obter autorização especial para viajar para essas Regiões Administrativas, de entre 18:00h e 06:00h.”
Para a consultora em segurança e ex-titular da pasta, Márcia Alencar, o alerta não faz sentido. “O DF tem queda vertiginosa de homicídios desde 2015. Brasília é referência nacional de qualidade das Polícias Militar, Civil, Penal e Bombeiros Militar. O que manchou a segurança pública do DF, que maculou sua imagem foi o 8 de janeiro, pela ação de descoordenação muito bem executada, por razões hoje tão claramente expostas” – avalia ela.

Visões
A visão dos diplomatas também se choca com a leitura oficial sobre a insegurança pública na Capital Federal. O GDF se vangloria que a cidade registra a menor taxa de homicídios em onze anos e que houve redução na quantidade de mortes no trânsito. Em maio passado, o secretário de Segurança, Sandro Avelar, comentava que a melhoria nas estatísticas era fruto da ação da parta. “O que temos é o resultado de uma política duradoura, de longo prazo e consistente” – disse ele à Agência Brasília – difusor oficial de notícias do GDF.
Pelos estatísticas oficiais, em 2024 houve uma melhoria da situação, em relação a 2023. Entretanto, naquele ano, quando foram registrados 203 homicídios no DF, as cidades que tiveram mais ocorrências – segundo informou no Correio Braziliense a repórter Ana Maria Campos – foram: Ceilândia (31), Planaltina (17), Recanto das Emas (12), Samambaia (12), Santa Maria (11), Sol Nascente (10) e Taguatinga (10). Esses dados dão certa razão à embaixada dos Estados Unidos quanto aos riscos de Ceilândia e Santa Maria, mas desacreditam quanto a São Sebastião e Paranoá. Não é sabido que dados embasaram o alerta aos gringos.
Estatísticas
Os dados da secretaria de Segurança podem até apresentar uma melhora em relação a anos passados, mas certamente preocupam aqueles que estão acostumados a outro padrão de segurança. Além disso, nas quatro regiões administrativas glosadas pela Embaixada dos EUA, mantido até o final do ano o comportamento verificado nos quatro primeiros meses de 2025, a tendência é uma piora dos indicadores de segurança pública.
Confira abaixo os dados dos principais delitos.

Impacto no turismo
O Alerta de Segurança indignou muita gente em Brasília. “Não é de hoje que a Embaixada dos Estados Unidos tenta pintar um retrato distorcido das periferias do Distrito Federal” – comentou o distrital Max Maciel (Psol). Para mostrar a riqueza da periferia, ele realizou um “rolê”, acompanhado da parlamentar alemã, Katalin Gennburg, pelas “quebradas do DF”, como Max gosta de se referenciar às áreas periféricas de Brasília.

Gennburg visitou o Sol Nascente e Ceilândia, passeou na Feira da Ceilândia e se esbaldou almoçando mocotó. Atividades que qualquer turista proveniente do Hemisfério Norte, teria curiosidade de realizar. “Para o choque da embaixada dos EUA, o único risco que Gennburg correu foi o de se apaixonar pela maior quebrada do DF” – escreveu Max em seu perfil no antigo Twitter.
Sobre turismo em Brasília, leia também:
-
Turismo: Oito rotas para se conhecer melhor Brasília
-
Imprensa chilena descobre as riquezas do turismo em Brasília
-
Guia das árvores frutíferas de Brasília busca apoio editorial
-
Mapas on-line mostram uma Brasília diferente dos tradicionais guias turísticos
-
Don’t go there! Americanos são desaconselhados a visitar cidades do DF
-
Turismo: um aquário para Brasília
-
Turismo para engravatados
-
Combate ao desemprego no DF passa pelo Turismo Internacional

Conhecendo as belezas do Cerrado
Já há algum tempo, o secretário de Relações Internacionais do DF, Paco Brito, realiza um trabalho de formiguinha, mostrando os recantos de Brasília aos diplomatas de diversas nações. Eles passam a conhecer uma Brasília fora do avião, as riquezas do Cerrado. Locais que eventualmente desconheciam ou que não imaginariam visitar. Saboreiam a culinária regional. É uma forma pedagógica de potencializar o turismo em Brasília. Colocar a cidade na rota das férias de muitos estrangeiros. O alerta de segurança da US Embassy joga no sentido contrário. Não só na atração de estadunidenses, mas também viajantes de outras nacionalidades e, inclusive, membros de organismos internacionais, que se orientam com base em avisos desse tipo.
Preocupado com o impacto no fluxo de turistas ao Brasil, que injetou US$ 7,4 bilhões no ano passado, o presidente da Embratur divulgou nota repudiando o que ele denominou de “recomendação alarmista, que mais se presta à desinformação do que à proteção dos cidadãos americanos”. Para Marcelo Freixo, o alerta de segurança “reproduz uma imagem distorcida e ultrapassada do nosso país.”



Associação Brasileira da Indústria Hotelaria (ABIH-DF), Henrique Severien, avalia que o forte de Brasília é o turismo doméstico, de negócios e eventos; que o peso dos norte-americanos não é expressivo.